Deficiências Motoras

A deficiência motora tem vários graus e pode ser consequência de um problema cerebral genético, derivado de doenças internas ou derivado a condicionantes externas como lesões em acidentes de viação, de trabalho e traumatismos variados.

Ao longo dos tempos, o corpo sempre foi alvo de estudos sociais, psicológicos e antropológicos e em determinado momento deixa de ser algo que é nosso para ser o que nos descreve. Pessoas com deficiência motora sofrem à partida de uma estigmatização pública pela percepção imediata da lesão corporal. Deixa de ser o Nuno e a Rita para ser a “menina numa cadeira de rodas” ou o “rapaz que ficou paraplégico”. O corpo assume primazia em detrimento da personalidade, o que pode manifestar-se em graves problemas psicológicos nos deficientes motores.

Nos indivíduos com deficiência genética, não existe a percepção do “eu” passado, aquela é a única realidade que conhecem. No caso da paralisia cerebral, que manifesta graves problemas motores, esta requer uma dependência de cuidados constantes e a aquisição de independência total é quase nula. Porém, aqueles que sofreram algum tipo de acidente que resultou na deficiência motora, são obrigados a percepcionar uma nova realidade, tendo sempre como comparação o seu corpo no passado. A percepção de si mesmo é alterada e varia de pessoa para pessoa e até de lesão para lesão. Cada indivíduo percepciona a sua incapacidade de forma diferente, mas a verdade é que existem situações angustiantes, especialmente na fase de aprendizagem de novas formas de estar e agir, na fase de aprender a gerir movimentos e reagir a situações. É frequente verificar que os indivíduos que se vêem numa situação de incapacidade sentem-se revoltados, manifestando sentimentos de dor, raiva, impulsividade, negação e ainda de luto pelo que foi anteriormente. Neste sentido, o corpo não é apenas o invólucro, mas sim a definição total de si mesmo. É necessário reinventar-se, nascer de novo, tendo em consideração as suas limitações, mas sem desistir da integração e assumir-se como diferente, mas capaz.

Mas a dificuldade reside no facto de que ser deficiente físico na nossa sociedade é viver em constante conflito com a incapacidade. Se, por um lado, pela descriminação, por outro lado pela comiseração que os qualifica uma vez mais como diferentes. Os deficientes motores sofrem represálias quer pelas barreiras convencionais, quer pelas barreiras arquitectónicas, de empregabilidade e de formação. É essencial existir uma mudança para a integração e aceitação. Mas também não podemos tratar uma pessoa com deficiência motora como se ela não existisse, pois estaríamos também a alterar a realidade. A melhor forma de relacionamento é aceitar a diferença, falar sobre a diferença.

Tendo como objectivo a auto-aceitação e inclusão na sociedade, alguns estudos mostram que praticar desporto aumenta os níveis de auto-estima e até mesmo de aceitação entre os grupos sociais. O desporto adaptado permite a participação em competições ou pode apenas servir como distracção, o resultado que se tem vindo a provar é que o desporto melhora significativamente a participação social e consequente visão de si mesmo, incentivando a auto-superação, modificando a sua identidade pessoal. O portador de deficiência motora começa a sentir-se capaz e com motivação. E aqui reside a força para superar depressões que facilmente ocorrem após as lesões.

Ao longo do tempo, têm sido feitos ajustes legais, estruturais e de incentivo à empregabilidade. Os transportes públicos foram modificados, foram colocadas rampas de acesso a cadeiras de rodas e assim a sociedade vai evoluindo. As empresas recebem incentivos por parte do estado na contratação de um funcionário com deficiência física e as entrevistas aos empregadores mostram que o nível de aceitação e satisfação é positivo, quer para a empresa, quer para o funcionário que vê as suas qualidades serem reconhecidas. Devemos apregoar a igualdade, devemos reconhecer as diferenças, mas também incentivar a igualdade em termos de oportunidades e capacidades para executar as mais variadas funções. Recorrendo ao velho slogan: “todos diferentes, todos iguais”.

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