Como se Descobrem os Novos Medicamentos?

Se lhe perguntassem o que tem a borracha, o chocolate, o algodão e os analgésicos em comum, o que responderia? A resposta é simples: todos podem ser obtidos a partir de plantas. Além do açúcar e do oxigénio que são fabricados através da fotossíntese, as plantas verdes também produzem uma extraordinária quantidade de substâncias à base de outros componentes químicos básicos. São essas substâncias químicas secundárias que dão a cada planta as suas propriedades distintivas.

Na verdade, a comichão provocada pela urtiga, a acidez de uma maçã e a suave fragrância de uma rosa são o resultado das mais diversas combinações de substâncias químicas que as próprias plantas produzem. Assim, aquilo que por vezes parece ser um único produto, é na verdade uma mistura muito complexa.

Fabrico Natural de Substâncias Químicas

O colesterol é uma substância gordurosa, normalmente associada à sua relação com as doenças cardíacas. No entanto, em algumas plantas o colesterol é o ponto de partida para o fabrico de um grupo vital de substâncias químicas conhecidas como esteróides. Os esteróides incluem a vitamina D, algumas hormonas tais como a cortisona e ainda medicamentos como o antiinflamatório betametasona. Por exemplo, a diosgenina é um esteróide usado na fabricação de contraceptivos orais produzido por alguns tipos de inhame. No caso da cortisona, esta é manufaturada a partir da hecogenina (esteróide natural extraído da polpa da folha do sisal após a fabricação de fibras). Da mesma forma, muitas das drogas que existem foram obtidas de tecidos vegetais.

As Plantas e o Homem

Embora o uso de drogas sintéticas pelo homem apenas recentemente tenha começado a ser usado como recurso médico, já por milhares de anos que os extratos vegetais são usados como tratamento de doenças comuns. Por exemplo, alguns registros assírios antigos descrevem o uso das anémonas comuns com o objetivo de aliviar a dor. Além disso, alguns papiros médicos egípcios do tempo dos faraós também nos ajudam a saber que já nessa altura se usava com frequência plantas com fins medicinais.

Segundo a Organização Mundial da Saúde existem mais de 20.000 plantas que são usadas para fins medicinais em todo o mundo. Por exemplo, a cada ano, só na Grã-Bretanha são usadas entre 6.000 a 7.000 toneladas de ervas como ingredientes para cerca de 5.500 produtos herbáceos e nos Estados Unidos, mais da metade das prescrições médicas são de medicamentos nos quais são usados derivados de plantas.

Como São Descobertos os Novos Medicamentos

Nas mais de 250.000 espécies conhecidas de plantas no mundo, e sendo que cada uma delas possui uma estrutura química potencialmente inigualável, os cientistas procuram incansavelmente pistas para descobrir medicamentos úteis. Uma das formas mais óbvias é por estudar algumas plantas que desde outrora são usadas para fins curativos.

Por exemplo, a cocaína foi descoberta após se observar que mascar folhas de coca suprimia as dores da fome e que ajudava a aliviar a fadiga. Após se isolar e modificar a estrutura da molécula de cocaína, os químicos conseguiram produzir um derivado sintético para ser usado como anestésico local. Talvez você não saiba mas, se alguma vez recebeu uma injeção por um dentista para anestesiar parte do maxilar com o objetivo de não sentir dor, o mais provável é que você se tenha beneficiado dessa pesquisa.

Apesar disso, algumas informações muito valiosas sobre o uso de plantas ainda hoje continuam ocultas em herbários. Por exemplo, um grupo de cientistas que passaram mais de quatro anos a examinar cerca de 2,5 milhões de espécies no Herbário Gray e no Jardim Botânico Arnold da Universidade de Harvard identificaram mais de 5 mil espécies de plantas como possíveis fontes de medicamentos, sendo que anteriormente as suas propriedades curativas não eram conhecidas.

Existe ainda um outro método de investigação que compara a composição química das plantas, sendo que, se uma espécie contém compostos úteis, outras espécies afins muito provavelmente também serão valiosas. Um exemplo disso é o caso de pesquisas com uma árvore do norte da Austrália que serviram para isolar a castanospermina, levando os botânicosa se virarem para a pesquisa em árvores afins, sugerindo que se pesquisasse a Alexa, da América do Sul.

Novos Medicamentos à Base de Plantas Conhecidas

As plantas mais conhecidas têm dado aos pesquisadores mais espaço para pesquisas. Por exemplo, o gengibre tem sido usado como antiemético, sendo especialmente eficaz contra o enjoo. Além disso, o gengibre talvez seja também útil para aliviar o sofrimento de portadores da parasitose tropical chamada de bilharziose. Foram usados medicamentos de gengibre em pó em crianças em idade escolar infectadas, tendo estes detido a ocorrência de sangue na urina e baixado a contagem de ovos de esquistossomo.

Apesar de tudo, a tarefa de examinar o reino vegetal à procura de mais medicamentos ainda mal começou. Até mesmo as plantas relativamente bem conhecidas ainda retêm muitos segredos. Por exemplo, descobriu-se que o alcaçuz possui na sua composição substâncias químicas antiinflamatórias e que os seus derivados podem ajudar a aliviar o sofrimento de quem tem artrite. Outra pesquisa que tem sido levada a cabo é a dos efeitos antifúngicos e antimicrobianos da ervilha comum.

No entanto, torna-se cada vez mais urgente a busca de novos medicamentos pois a todo o instante têm sido destruídas sem justificação pertinente diversas espécies vegetais em certas regiões do mundo. Por isso, a meticulosa análise química das plantas e a sua conservação genética continua a ser prioridade máxima, mesmo no caso daquelas que já são conhecidas. Há medida que se vai estudando as plantas e os seus efeitos curativos, temos cada vez mais consciência de quão limitado é o nosso conhecimento das complexidades da vida vegetal.

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