O Peso da Beleza
- Publicado:2011-05-22 Editado:2011-05-22
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Cultuar a beleza pode custar muito mais caro do que supomos. Pode nos custar saúde, dinheiro, sanidade, pode nos custar à vida.
O corpo é objeto de obsessão pela eterna juventude, pela moda; é dele a função de nos incluir na vida social.
Olhando atentamente a questão “estética”, vemos que o ser humano sempre priorizou o aspecto físico, em maior ou menor escala, ao longo da história. Temos então, que a busca por aprovação e, até por nossa identidade, reflete-se em práticas, algumas tão corriqueiras, que quase não nos damos conta: pintura de cabelo, unhas, todo tipo de dietas, práticas esportivas, piercing, tatuagens, depilação, botox, cintas elásticas e por aí vai.
Passo agora a falar de estatísticas. Segundo a ISAPS (International Society of Aesthetic Plastic Surgery) Global Survey, os campeões em procedimentos cosméticos cirúrgicos e não cirúrgicos são, nesta ordem: USA, China e Brasil (seguidos por outros 23 países, que juntos perfazem 75% do total global). Foram computados (2010) algo em torno de 17.300.000 procedimentos, não considerados aí, os efetuados por cirurgiões não plásticos. O total de participantes nessa pesquisa foi de 20.000 cirurgiões plásticos.
E, daqui em diante, me desloco para outro foco: Dismorfofobia ou Complexo de Quasimodo (Quasimodo, criação de Vitor Hugo, personagem de O Corcunda de Notre Dame). As estatísticas são ainda mais impressionantes. Segundo alguns estudiosos, entre 6 e 15% dos pacientes que procuram um cirurgião plástico, sofrem deste distúrbio. Destes, entre 78 e 81% tem ideação suicida. Entre 22 e 28% deles efetivam a tentativa de suicídio. A violência é sintoma nos portadores deste complexo e, existem relatos de assassinatos de cirurgiões e dermatologistas, por pacientes. Outros sintomas são anorexia, bulimia, fobia social e depressão.
Esta doença (CQ) é catalogada hoje como desordem somato-morfológica e, pasmem, é quase totalmente desconhecida pela grande maioria dos cirurgiões plásticos.
Peço desculpas àqueles que me lêem agora. O tema é complexo, o texto resumido.
Falo de uma situação surreal. Psicólogos e psiquiatras alertam sobre um mal que se caracteriza pela obsessão ao belo. E não o belo real, mas o belo relativo. Pessoas que criam um ideal inalcançável; porque a frustração do inacessível é sintoma. A insatisfação com sua imagem é patológica e recorre indefinidamente.
Há também, registro de suicídio endógeno.
Em estudos de psicoterapia corporal, fala-se do significado simbólico (e inconsciente) das modificações corporais, e como a supervalorização da imagem pode encobrir um problema de ordem psíquica. Há estudos que indicam a mídia como grande vilã nessa tragédia. Questões sociais, profissionais e culturais também são fatores considerados.
Decerto, vivemos a ilusão de uma sociedade avatar. A crença de sermos produto, moldados segundo a necessidade momentânea. De real, temos uma população flutuante de pessoas sem rosto, sem personalidade e sem norte, tentando adequar-se, num mundo que morfa todos os dias.
Enquanto estudiosos da psiquiatria alertam seus colegas médicos e, até sugerem veementemente, que encaminhem seus pacientes a uma avaliação e/ou tratamento psiquiátrico, quando diagnosticados com CQ, o tema e o problema são negligenciados.
Como curiosidade complementar, cito Aristóteles em “Forma e conteúdo não podem ser entendidos separadamente, pois um faz parte do outro, soma e psique, aspectos distintos, porém inseparáveis, de uma mesma realidade.”
Aos leigos e curiosos como eu, recomendo a leitura sobre o tema “Transtorno Disfórmico Corporal”, que surge forte e sorrateiro, feito monstro no armário, aumentando ainda mais a desordem e inquietude da alma humana.
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