O Meu Resumo Sobre a Evolução Do Exercício Físico No Contexto Da Saúde Ao Longo Do Séc. XX

Todas as áreas profissionais na nossa sociedade, ao evoluírem no sentido da massificação, aprofundam qualidades, mas também deixam vir à tona as suas fraquezas. O Fitness não será excepção!

O Fitness teve os seus inícios assentes no altruísmo de uns quantos, que tiveram o sonho de transmitir a toda a gente, aquilo que sentiam como efeitos positivos da prática da actividade física. Como movimento reconhecido, é apontado o final da década de 70 no séc.XX como o seu início. No entanto, a história na era moderna ocidental (não me vou referir à antiga Grécia ou ao percurso histórico no oriente, que é aliás riquíssimo sobre tudo na China e na Índia) tem referências muito anteriores no que se refere à procura da melhoria das capacidades motoras condicionais e coordenativas, como fonte de saúde e bem-estar.

Eugen Sandow, no virar do séc. IX para o XX terá sido provavelmente o primeiro Personal Trainer, dando aulas particulares a elementos da família real inglesa. Desde aí, muitas outras personalidades surgiram a promover abordagens umas vezes mais, outras vezes menos inovadoras: Dr. John Harvey Kellogg, Joe Weider, Angelo Sciliano (mais conhecido por Charles Atlas), Arthur Jones, Georges Hebert, Per Henrich Ling, Dr. Cooper, entre outros.

É no final dos anos 70 (séc. XX) que surge a ginástica aeróbica, método que ficou a dever parte da sua popularidade à actriz Jane Fonda. No início dos anos 80, a comunidade médica debruçou-se com um olhar bastante crítico sobre esse novo fenómeno que começava a conquistar uma parte significativa da população, o Fitness. Provavelmente porque lhes chegavam frequentemente praticantes de Fitness com lesões por desgaste e/ou trauma. Mas isso acontecia, na generalidade das vezes, devido a práticas prejudiciais provenientes de interpretações incorrectas dos conceitos (pois na altura a formação de professores e instrutores, não assumia nem de perto nem de longe toda a estruturação que tem hoje). No entanto, com todo o peso que a comunidade médica tinha na sociedade, logo se vieram a limitar ou até mesmo a proibir toda e qualquer actividade de alto impacto, determinados ângulos articulares e certas intensidades de esforço.

Eugen Sandow, provavelmente o primeiro personal trainer no mundo

Eugen Sandow, provavelmente o primeiro personal trainer no mundo

Bem, a comunidade do Fitness soube adaptar-se a isso, não sei se da melhor maneira, mas fê-lo. Surge então a aeróbica de baixo impacto, olha-se com pavor para o alto impacto e até para o médio impacto. Pliometrias então, até em atletas, nalguns casos, deixam de se fazer… Impulsionada por estes novos conceitos orientadores da Actividade Física para a Saúde, aparece nesta fase a ideia de colocar as pessoas a subir um degrau nas aulas de grupo, pois para além de não exigir alto impacto, nem o recurso a ângulos articulares extremos, conseguia-se um nível de intensidade significativo. Tinha sido inventado o Step!

Nessa altura torna-se também muito popular a ideia de que o treino de força, realizado de forma analítica, em máquinas de cargas guiadas, seria muito mais seguro e construtivo para a saúde, do que o treino efectuado com pesos livres. Nesta fase explode a indústria das máquinas de musculação. Ao ponto de hoje em dia, um ginásio que se queira comercial e consiga atrair clientela, ter de investir mundos e fundos para comprar máquinas excessivamente caras que permitam treinar qualquer pequenino músculo de forma analítica, ou uma passadeira que custe quase 10 mil euros (se bem que no caso das máquinas de Cardio-fitness, a explosão acorre na década de 90)…

Neste embalo comercial, instala-se definitivamente a poderosa indústria do Fitness, que foi já muito além dos meios técnicos de custo inflacionado e “falsamente imprescindíveis”. Surgem marcas e modelos de roupa específica para cada uma das infindáveis modalidades. Os suplementos nutricionais conseguiram campanhas de promoção no meio, que fizeram o publico assumi-los como imprescindíveis (este sector comercial implica hoje em dia a movimentação de importantes capitais a nível mundial). Algumas multinacionais do Fitness abrem inúmeros ginásios nas grandes cidades e formam, numa ou duas semanas, um Personal Trainer que até aí era vendedor de automóveis ou de telemóveis… É este o lado mais negro do Fitness, que a mim e a muitos colegas com que troco habitualmente ideias, entristece bastante. Mas, para sermos intelectualmente honestos e justos, após uma análise global do fenómeno, seremos obrigados a assumir que o movimento do Fitness conseguiu em poucas décadas fazer muita gente vencer o sedentarismo. Por vezes tê-lo-á conseguido pelas vias mais nobres, outras vezes nem tanto (por modas, por focos motivacionais pré-fabricados, impingidos e inconsistentes, que constantemente nascem e morrem, etc.), mas o certo é que o tem conseguido.

Alguns fenómenos dissidentes têm nascido do Fitness. É o caso do Wellness, que pretende opor-se à ideia do “ser capaz” (Fitness) com a ideia do “bem-estar”. O Wellness surgiu como contraponto àquela fase da evolução do Fitness, em que a ideia “mais é melhor” parecia dominar. Muito bem ilustrada por aquelas pessoas que competiam com o colega de treino a ver quem fazia mais aulas diárias, ou a quererem a todo o custo a maior quantidade de músculo possível… (Com a correspondente abundância “de cafeínas”, “guaranás”, Esteróides Anabolizantes… Enfim!). Passava aqui então a ser mais importante “a forma como me sinto” do que “aquilo que sou capaz de fazer”. Esta tendência veio reafirmar a importância dos métodos suaves orientais (Yoga, Taichi-Chuan, ChiKung, etc.) e ocidentais (Pilates, Stretching, Auto-relaxamento, etc.).

Na realidade também este novo conceito do Wellness continha as suas limitações, já que a “capacidade” pode efectivamente ter uma importância significativa na qualidade de vida, ou até mesmo para a sobrevivência do indivíduo. Como exemplos: Conseguir caminhar numa rua com declive acentuado sem ficar excessivamente fatigado, ser capaz de descer a tempo as escadas de um prédio de 20 andares que tem os elevadores desligados devido a incêndio, ter a força e a robustez física necessárias para garantir que se segura convenientemente, e suposta os impactos, dentro de um auto-carro que capotou, etc. É aliás essa noção de “funcionalidade” que na década de 90 (séc. XX) impulsiona, de certa forma, o surgir do conceito de Força Funcional. No contexto desta corrente, volta aqui o treino com pesos livres a tomar, novamente, um lugar de destaque no Fitness. O treino com pesos livres e o treino de alto impacto ganham também maior importância mesmo do ponto de vista puramente anatómico. Isto verificou-se, em grande medida, devido aos resultado dos diversos estudos que vieram comprovar o seu papel muito positivo no aumento da densidade óssea (com a consequente capacidade para prevenir a osteoporose e até mesmo reverter a osteopénia). Foi ver novamente as salas das actividades de grupo cheias de “gente aos saltos”… Estava “enterrada” a aeróbica de baixo impacto. Aliás, toda a “Aeróbica” quase se estingue nesta altura. Muito devido também à crescente complexificação a que os professores de aeróbica vinham submetendo as suas coreografias desde finais dos anos 80. Possivelmente por não conseguirem aumentar a intensidade das suas aulas por via do impacto, não viram outro caminho que não o do aumento da variável complexidade, para manterem nos seus alunos um sentido de evolução. No fundo descentraram-se do essencial: A generalidade das pessoas procurava melhorar a saúde e a condição física e não chegar a níveis elevados de coordenação e memória motora. Novas modalidades de coreografias mais simples, mas mais exigentes do ponto de vista das capacidades condicionais, surgiam agora, ainda para mais sem a limitação referente à possibilidade de incluir médio e alto impacto e com o reconhecimento do valor do treino de força com pesos livres. Oportunamente logo surgiram perspicazes visionários empresariais, a registarem patentes de modelos de aulas pré-feitas para serem vendidas em regime de franchising.

Como se vê, o Fitness é um pouco o reflexo da sociedade que lhe deu origem: Tem coisas más e coisas boas. Até no meio académico nós sabemos que muitas vezes as tendências de investigação se deixam afectar por este ou por aquele grupo de interesses… Gostava, para finalizar, de deixar aqui saliente o facto de que ao longo do percurso histórico que o Fitness descreveu, parece ter o Treino da Força mantido e até reforçando a sua importância.

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